Eu na Comunicação

A voz que Quebrou Paradigmas: A Trajetória de Vitória Rios, da Periferia a emissoras gigantes como Alpha FM, American Sat e 101 FM.

Locutora de currículo e experiência gigantes, com portfólio completo usou a voz para dominar o rádio brasileiro, provando em cada microfone que a liberdade é a própria substância do viver.

No “Eu na Comunicação” de hoje, vamos contar a história de Vitória Rios, uma comunicadora com um currículo de peso e uma voz inconfundível. Com uma carreira completa, ela passou por grandes empresas como Alpha FM, América Sat, Bolsa de Valores em SP, e fez história ao ser a primeira mulher a passar pelo programa jornalístico Rotativa no Ar. Ela sabe bem usar a voz e encantar multidões.

Nascida em Mairi, no interior da Bahia, ela mudou-se ainda bebê para São Paulo, onde morou inicialmente em Alto de Pinheiros, próximo à Vila Madalena.

Seu pai trabalhava como pintor de automóveis e a mãe como empregada doméstica. De uma infância comum na periferia, brincando na rua e estudando em colégios públicos até o ensino fundamental (oitava série), Vitória se lembra da necessidade da mudança para a periferia:

“Devido à condição de Classe C, mudamos para Rio Pequeno, próximo à USP no Butantã.”

Aos 14 anos, ela começou a trabalhar como recepcionista, atendendo o telefone, e foi nesse período que descobriu o poder de sua voz:

Minha voz, ela era muito atraente. Então todas as pessoas chamavam a atenção a respeito disso. ‘Ai, que, linda sua voz. Nossa, queria te conhecer’. Os homens começavam a ligar insistentemente, depois do primeiro contato, querendo me conhecer. Então, eu ficava bem assustada com isso, porque eu só tinha 14 anos, né?

Vitória guardou essa informação para a vida adulta, e sua primeira experiência “no ar” foi em uma perua Kombi, fazendo anúncios de festa em prol do meio ambiente. Isso era anos 90. Aconteceria um show beneficente e, para chamar a atenção, ela realizou uma mini copy1 na época, enquanto tocavam a lambada.

E toda vez que eu fazia o anúncio, todo mundo saía das casas. Eu achei aquilo assim bem interessante. Chamava muita atenção, eu fiquei me sentindo bem estranha depois aquilo, descobri alguma coisa em relação à minha voz, de fato.

Então, de mudança para Santa Fé do Sul, no interior de São Paulo, Vitória descobriu que poderia usar a voz como ferramenta de trabalho, “e no caso como radialista né? Eu já usava como telefonista…”

E o destino marcou um encontro através do anúncio de uma rádio local, depois de seis meses que morava em Santa Fé do Sul. “Eles não queriam uma pessoa formada, queriam ensinar”, Vitória agarrou essa oportunidade e foi fazer o teste:

Eu fui a primeira pessoa a chegar. E a redação parou e eles falaram: ‘Acho que já encontramos, mas você é a primeira’.

Essa rádio continua em Santa Fé do Sul, tendo 34 anos, se chama Dinâmica FM e copiava um pouco do modelo da Rádio Transamérica de São Paulo. Vitória sentiu-se confiante:

E eu tinha bastante isso no meu imaginário porque eu vinha da capital. Então, foi muito fácil para mim. Eu só tinha uma dificuldade ali que eu achava que ia ser impossível transpor, que seria pronunciar em inglês. Mas eu tinha algumas revistas e eu estudei ali um pouco o que eu pude de pronúncia e fiz o teste e deu tudo certo ali naquela hora.

Após o teste, a comunicadora esperou cerca de dois meses até o fim do suposto concurso, que teve mais de 100 mulheres. No final, foi escolhida e chamada, “Eu fiquei muito surpresa, mas muito feliz também. Eu tinha 20, 21 anos.”, E ali começou a sua jornada de fato.

Eu nunca tinha pisado no estúdio de rádio de verdade assim. Eu fui com a minha mãe quando eu era pequena, mas ali eu fui aprender o que que era exatamente uma rádio. Fui apresentada para equipamentos que não estão mais em uso. Naquela época era tudo bem analógico. E eu tive que aprender a fazer mesa logo de cara.

O desafio foi grande, pois a comunicadora conta que não tinha nem toca-discos em casa, “então eu fui aprender a colocar um disco, a virar esse disco. Tinha umas dinâmicas bem difíceis na rádio que às vezes a gente utilizava um disco só para colocar duas músicas daquele disco, uma seguida da outra, né? Então a gente precisava de ter bastante habilidade. E eu tirei de letra isso, né? Eu consegui ser uma boa operadora de rádio naquela época.”

Nesse período, então, estreava um programa que começava às 4h da manhã, ia até às 7h, e depois retornava das 16h ou 17h até às 19h, tudo ao vivo. Ela viveu intensamente o contato com o mundo rural.

Eu vivi essa coisa do homem do campo muito mais do que hoje em dia, até porque lá é próximo do Mato Grosso do Sul, ainda é mais rural do que a nossa região. E foi uma experiência incrível. O que mais surpreendeu é que as pessoas amavam muito ouvir minha voz e elas me procuravam bastante na rádio. Já logo de começo eu fiz bastante sucesso. Eu era parada na rua. Eu atraí bastante cliente para a rádio. Foi bem interessante. Então eu tive uma jornada assim inicial bem gratificante.

Posteriormente, Vitória conta que precisou voltar para São Paulo, por conta do desemprego do marido, e engravidou do segundo filho. Ela ficou apenas um ano nessa rádio, pois engravidou logo nos primeiros dias de contratação.

Voltando para São Paulo, mesmo sem a certeza do que a esperava no futuro, mudou-se para Santo André, no ABC Paulista.

E lá eu recomecei a procurar emprego logo depois do parto, né, daquele período de adaptação com a criança nova. Foi bem difícil. Eu não conhecia ninguém do meio… até que eu descobri uma cabeleireira […] E nas nossas conversas, enquanto eu fazia pé e mão das pessoas, essa mulher me indicou uma rádio pirata.

A pessoa da rádio pirata, no entanto, a reconheceu: “Não, você é muito boa e eu quero você num outro projeto”, e a levou para a conceituada Rádio ABC AM, no Grande ABC Paulista. Ali, ela conheceu Lombardi, um grande comunicador.

Conheci Lombardi, que trabalhava com Silvio Santos, né, um grande comunicador. Ele que foi chefe de locutores da Globo. Nossa, ele me acolheu muito bem, ele falava muito bem de mim no ar […] a gente no início precisa de padrinhos, né? E não podia ser melhor.

No ABC fez muitos projetos, usando a voz de diversas formas, “Ali eu fui vendedor em supermercado, fiz porta de loja, essas coisas que o locutor faz, né, dentro dos comércios. Então eu fui bastante divulgada ali naquela região, eu trabalhei muito, eu ganhei bastante dinheiro ali. Então a minha vida profissional se intensificou naquela região. Eu fiquei por lá quase 10 anos.”

Nessa fase, também trabalhou em TV como apresentadora e repórter no Canal 45 e passou pela rádio América Sat, onde quase conheceu Ana Maria Braga, se aproximou muito de comunicadores da Avenida Paulista.

A busca por uma rádio na Avenida Paulista era o sonho dela e dos colegas. Apesar de ser sempre incentivada a fazer televisão, “Você tem uma figura muito interessante, você deveria ir para a TV”, ela lutava contra o preconceito com a própria aparência e achava que o rádio era o caminho que tinha condições de alcançar.

Na América Sat, um locutor da Rádio Nativa, Ranieri, a indicou para a Rádio Alpha: “Vitória, você tem o perfil exato para a Rádio Alpha.” Três meses depois, ele ligou de madrugada, ofertando a indicação.

Fiz o meu piloto, levei na Rádio Alpha naquele mesmo dia. E na mesma semana, a gente teve o resultado e eu acabei sendo contratada.

A contratação marcou a verdadeira virada profissional, “eu fico muito feliz de lembrar dessa história, porque daí sim, eu me senti realmente pertencente ao rádio. Porque foi a primeira vez que eu comecei a ganhar um salário de verdade […] Então, a minha vida realmente mudou a partir da Rádio Alpha FM, onde eu fiquei 10 anos.”

Na Alpha FM, a comunicadora fez muitos outros projetos simultâneos em rádios como Gospel FM, Rádio Palmeiras e até na rádio da Bolsa de Valores de São Paulo. Ela também se consolidou nas gravações.

O que me ajudava a ganhar dinheiro eram umas gravações. Então, o que que eu fazia? Telemensagem, a gente usava pelo telefone […] Eu também ganhei muito dinheiro gravando essas mensagens amorosas, tanto que eu detesto fazer isso hoje em dia.

Sua carreira se tornou completa, atuando como apresentadora de shows em São Paulo e Rio de Janeiro, “o primeiro show que eu apresentei foi de Chitãozinho Xororó, num público de aproximadamente 10.000 pessoas, foi muito incrível. Isso aí foi na década de 90 ainda, lá no ABC mesmo.”

A carreira de locução para mim, foi completa. Eu fiz tudo que a profissão poderia oferecer, né? […] eu não consigo nem enumerar o tanto de trabalhos que eu já fiz com a voz.

Após a Alpha FM, passou pela Iguatemi Prime, onde também teve o prazer de conhecer seu esposo, Altino Moreira, e seguem juntos até hoje, no amor, na vida e no rádio.

De volta ao interior, ela trabalhou na Rádio Califórnia e depois na Rádio Clube FM em Osvaldo Cruz, onde fez história.

Eu fui a primeira e única mulher a passar pelo programa Rotativa no Ar, que é um jornalístico, que tem mais de 60 anos ininterruptos, né? […] E foi uma honra ter acontecido isso na minha vida também.

Logo depois, ela também atuou na Rádio Cidade e, atualmente, está na 101 FM.

Vitória reflete sobre o mercado de trabalho: “Eu ando bem distante desse meio de gravação ultimamente, né? Porque assim, mudou muito. A gente tem aí a IA (Inteligência Artificial), que está concorrendo fortemente com os locutores de estúdio […] Eu prefiro não fazer mais porque tão pagando muito pouco.”

Ela conclui com a dificuldade de trabalhar em rádio hoje (sem CLT e com acordos individuais) e a esperança de um futuro próximo.

Aqui eu me sinto bem, me sinto valorizada. Tenho uma audiência incrível. Então eu ainda não penso em me aposentar. Mas naturalmente isso vai acontecer, né? Acredito que daqui mais uns 5 anos eu não esteja mais no rádio. Vamos ver.

Apesar de tantas modificações no mercado, desde o início da profissão, Vitória Rios não apenas sobreviveu, mas viveu e respirou comunicação de forma completa.

Sua trajetória é marcada pela lucidez em todas as facetas do meio, pela passagem em grandes emissoras e por contatos importantes. No entanto, o verdadeiro impacto de sua jornada é a mensagem que ela carrega: De menina preta, de origens simples e saída da periferia, Vitória superou todos os paradigmas.

Ela provou que não existem limitações, não existem restrições. Você pode ser o que quiser, e quem determina onde você vai chegar, é você mesmo.

Curiosidade Extra!

Além de uma carreira completa no rádio, a voz de Vitória Rios também marcou presença no cenário musical: ela fez uma participação em um projeto do Racionais MC’s

https://www.youtube.com/watch?v=4xlDbd9m-3A&list=RD4xlDbd9m-3A&start_radio=1

Que nada nos limite, que nada nos defina, que nada nos sujeite. Que a liberdade seja nossa própria substância, já que viver é ser livre.

Simone de Beauvoir

  1. O termo “copy” (do inglês copywriting) refere-se à escrita persuasiva, utilizada para convencer ou incentivar o público a tomar uma ação (como participar de um evento ou comprar um produto). A “mini copy” ou “mini-cópia” era, neste contexto, o anúncio curto, conciso e direto que Vitória fazia para a multidão, resumindo a mensagem do evento beneficente de forma imediata e impactante. ↩︎

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Um Comentário

  1. Todos tem uma história, isso é fato.
    Rastos são feito quando caminharmos, isso é fato.
    O sucesso é inevitável de fato quando somos verdadeiros. Autênticos.
    Parabéns Vitória Rios, pela sua caminhada de evolução.
    Parabéns Victoria Baracat, por ouvir e registrar as evoluções.
    As histórias daria um bom livro. ” Histórias e evoluções”
    …. Fica a dica.

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